(Confissões de uma Águia misteriosa)

Dor? Sofrimento? Sim, sinto e tenho, mas nada é fácil nesse mundo. Enfim, se você se conforma com a vida que tem, é porque tem medo de tentar, e eu não tenho e lutarei até o fim.

Sobre a Águia

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Eu não sou nada. Não posso querer ser nada. Mas tenho em mim todos os sonhos do mundo... Uma coisa é escrever como poeta, outra como historiador: o poeta pode contar coisas não como foram, mas como deveriam ter sido, enquanto o historiador deve relatá-las não como deveriam ter sido mas como foram, sem acrescentar ou subtrair da verdade o que quer que seja.

domingo, 29 de março de 2009

O Silêncio

Aprenda com o silêncio a ouvir os sons interiores da sua alma, a calar-se nas discussões e assim evitar tragédias e desafetos.

Aprenda com o silêncio a respeitar a opinião dos outros, por mais contrária que seja da sua.

Aprenda com o silêncio que a solidão não é o pior castigo, existem companhias bem piores...

Aprenda com o silêncio que a vida é boa, que nós só precisamos olhar para o lado certo, ouvir a música certa, ler o livro certo, que pode ser qualquer livro, desde que você o leia até o fim.

Aprenda com o silêncio que tudo tem um ciclo, como as marés que insistem em ir e voltar, os pássaros que migram e voltam ao mesmo lugar, como a Terra que faz a volta completa sobre o seu próprio eixo...

Aprenda com o silêncio a respeitar a sua vida, valorizar o seu dia, enxergar em você as qualidades que possui, equilibrar os defeitos que você tem e sabe que precisa corrigir e enxergar aqueles que você ainda não descobriu.

Aprenda com o silêncio a relaxar, mesmo no pior trânsito, na maior das cobranças, na briga mais acalorada, na discussão entre familiares.

Aprenda com o silêncio a respeitar o seu "eu", a valorizar o ser humano que você é, a respeitar o Templo que é seu corpo e o santuário que é a sua vida.

Aprenda hoje com o silêncio, que gritar não traz respeito, que ouvir ainda é melhor que muito falar. E em respeito a você, eu me calo, me silencio, para que você possa ouvir o seu interior que quer lhe falar, desejar-lhe um dia vitorioso e confirma que você é ESPECIAL.


Paulo Roberto Gaefke

domingo, 15 de março de 2009

Encontro com a Morte

Douglas era um jovem com seus vinte e poucos anos, diferente dos meninos da sua idade, não gostava de sair pra baladas, não namorava, tinha poucos amigos e tinha um sonho, conhecer a tão temida morte. Quase sempre, fechado no seu quarto, vivia chamando a, e como ela nunca aparecia, ele dizia aos amigos que a morte não existia, que isso era invenção do povo. Ou então, que ela era metida e arrogante e só aparecia para fazer as separações e deixar as pessoas tristes.

Certo dia, Douglas abriu a porta do terraço da sua casa, e deu de cara com uma ave estranha, não soube identificar que espécie de pássaro era aquela. O bicho era horrível, tinha pêlos negros, um rosto arredondado cor de vinho, os olhos eram bem pequenos e pretos. O animal olhou profundamente para Douglas que assustado fechou a porta do terraço. Passou alguns minutos recuperando o fôlego e tentando descobrir como aquela coisa foi parar ali. Abriu novamente a porta, agora bem devagar, e não viu a ave. Colocou só a cabeça pro lado de fora e de repente o animal começou a voar de um lado pra outro como se estivesse com raiva. Douglas apavorado fechou a porta e correu para o telefone.

Ligou para o seu melhor amigo, contou o que tinha acontecido, mas ele não acreditou e disse que tudo não passava de uma viagem da sua cabeça. Douglas por sua vez, indignado, desligou o telefone e foi conferir se era mesmo viagem. Primeiro colocou o ouvido atrás da porta, mas não havia nenhum barulho, tudo estava calmo, abriu então a porta e viu o animal de costas e com uma respiração ofegante. Douglas ficou convencido que não era viagem da sua cabeça e voltou para o seu quarto pensando como tiraria aquela coisa do terraço.

Alguns dias se passaram e Douglas não havia encontrando nenhuma forma de tirar aquele bicho de lá. Na verdade, ele tentou algumas vezes expulsar a ave com uma vassoura, mas ela ficava com mais raiva cada vez que ele mexia nela. Quinze dias haviam passado e nada do bicho tomar rumo. Douglas foi chegando de mansinho, olhou dentro dos olhos da ave e então ela foi se transformando numa velha, estava vestida com uma roupa preta, o rosto todo enrugado e na cabeça, cobrindo seus cabelos brancos, tinha um chapéu preto no formato de cone. Ele não acreditava no que estava vendo. O que era aquilo? Algum mutante? Perguntava-se Douglas. A velha caiu na gargalhada e ele perguntou:
- Quem é você?
- Como quem sou eu? Você passa dias e dias me chamando, diz que não existo, que só apareço pra fazer maldades, pra deixar as pessoas tristes...
- Quer dizer que você é...
- Isso mesmo... Prazer! Eu sou a tão temida morte.
– Enquanto isso a velha vai arrancando sua pele enrugada do rosto e aos poucos vai rejuvenescendo.
- E porque você demorou tanto a aparecer?
- Meu querido, eu sou muito ocupada. Trabalho dia e noite, carrego muito peso. Não tinha tempo de lhe fazer uma visita, a sua hora não tinha chegado ainda. Agora que estou de férias, não conseguia descansar porque você não parava de me chamar.
- Mas a minha hora chegou? Eu não quero ir agora.
– Fala Douglas apavorado.
- Não, a sua hora não chegou, ainda não é o momento. Estou aqui apenas para uma visita.
- E porque você veio na forma daquele animal? Você sempre chega assim?
- Nem sempre, aquilo foi um disfarce, pois como falei estou de férias e não posso sair por aí com a minha verdadeira forma.
- E qual é a sua verdadeira forma? Porque você deixou de ser velha e agora está mais jovem?Eu não sabia que a morte tirava férias. E durante esse tempo ninguém morre?
- Nossa! Garoto como você faz perguntas... Primeiro, estava velha porque estava fora do meu habitat, quando passo muito tempo fora, sem trabalhar, fico toda enrugada. Depois de algum tempo a pele vai caindo aos poucos, e aí vou rejuvenescendo... Segundo, a morte tira férias sim. Deixei um estagiário no meu lugar. Você pensa que não cansa todos os dias ter que ir a vários lugares diferentes e sair carregada de pesos? Tem almas que pesam, pois resistem a mim, tem outras que já estão preparadas e então é leve como uma pluma. Esses são os melhores pra levar, pois não gasto tanta energia... E por último, a minha verdadeira forma é essa que você está vendo agora.
- Hum! Você não é tão feia quanto dizem.- Pois é. Não sou nem tão feia e nem tão má... Muitas pessoas têm medo de mim, tudo por causa do meu trabalho. O que posso fazer? Só faço cumprir ordens... Sinto dizer amigo que tenho que ir embora. Já passei muito tempo fora e as minhas férias já estão acabando. Foi um prazer conhecê-lo... Até breve.
A morte diz as suas últimas palavras e se transforma novamente naquela ave estranha. Olha nos olhos de Douglas como quem diz um “tchau”, bate as asas e ele faz menção de dizer alguma coisa, mas continua mudo e ela voa. Douglas fica perplexo, dá adeus com a mão, e decide não contar nada pra ninguém sobre tudo o que tinha acabado de acontecer. Pois quem acreditaria que ele tivera um encontro com a temida morte?

sábado, 14 de março de 2009

Capítulo 4 - A Lembrança do Primeiro Beijo

"A descoberta de Miguel"

Miguel não tinha tido oportunidade de continuar a história. Tudo muito corrido, a universidade tomando todo o tempo dos dois. Isadora, desde o dia que soube da verdade, não tinha conseguido dormir direito. Tamanha era sua curiosidade. Uma semana se passa até que eles resolvem marcar um encontro num lugar calmo e onde não fossem interrompidos.
Eles chegam no parque e tudo o que se ouvia era o som da natureza. Isadora quase morta de curiosidade diz:


- Vai Miguel começa logo!
- Onde paramos?
– Pergunta Miguel.
- No Renato. – Diz Isadora mais rápido do que o pensamento.
- Então! O Renato estudava na mesma sala que eu. Entrou no colégio no segundo semestre do ano, todos já se conheciam e nos intervalos ele ficava sozinho, pois ainda não tinha se enturmado com ninguém. No primeiro dia em que bati os olhos nele senti algo diferente, aí demorei uma semana para chegar junto e puxar conversa. Você sabe como eu era tímido. Mas eu pensava que era apenas um desejo temporário, que depois de uma conversa tudo passaria... – Na verdade ele estava com medo daquele sentimento -
Mas não foi bem o que aconteceu. A cada dia que conversava com ele e olhava dentro dos olhos e para aquela boca, eu me apaixonava mais. A forma como ele falava, como ele agia. Era tudo tão lindo, tão puro que eu nem prestava atenção no que ele estava dizendo, viajava nos meus pensamentos, imaginando como era beijá-lo. Mas logo era trazido de volta a realidade. Tinha medo de que ele lesse os meus pensamentos e visse no meu olhar algo suspeito, e descobrisse que eu o desejava...
- Mas como ele te tratava?
- Tem coisas que a gente só enxerga quando quer, por mais que estejam diante dos nossos olhos. A princípio ele me tratava como um colega de classe, pelo menos era assim que eu interpretava.
- Como assim? Você estava interpretando errado?
- Sim. Ele também estava interessado em mim e eu não havia notado. Achava que era só eu que estava sentindo aquilo. Nunca passou pela minha cabeça que eu pudesse estar sendo correspondido.
- Jesus, Maria, José! E como foi que você descobriu?
– Pergunta Isadora empolgada.

- Demorou alguns meses pra eu descobrir. Ele era muito discreto, não deixava ninguém perceber nada. Até porque se os meninos da nossa sala descobrissem seria horrível, pois eles não perdoavam e caçoavam mesmo. Aí seria um inferno... Só que toda dia no caminho pra casa, eu e o Renato íamos juntos, pois morávamos perto. Certo dia ele desviou o caminho e me trouxe para esse parque. Eu não entendi nada e perguntei porque ele tinha me levado ali. Ele disse: “- Porque eu quero te mostrar uma coisa...” Fiquei nervoso e milhões de coisas passaram pela minha cabeça. Continuamos caminhando e quando chegou em frente a esse lago a gente parou e ele pediu para que eu deitasse e olhasse pro céu, ele fez o mesmo e deitou ao meu lado. Já estava escurecendo e dava para ver as primeiras estrelas que surgiam. Durante alguns minutos ficamos calados e observando o céu ao som dos pássaros. Eu, lógico, comecei a viajar nos meus mais íntimos pensamentos. Até que fui despertado pelo Renato dizendo: “- Dou qualquer coisa pelo seu pensamento” “- Qualquer coisa?” Eu brinquei e aí começamos a rir, nem havia me dado conta que já estava escuro...
- Mas o que você estava pensando Miguel?
– Interrompeu Isadora.
- Ah! Eu estava pensando como era bom estar do lado dele, como a gente se divertia quando conversávamos. Como seria bom se a gente namorasse. – Miguel com olhos brilhando continuou –
Mas o melhor estava por vir...
- E o que aconteceu?
– Isadora pergunta ansiosa.

- Ele disse: “- Me ajuda a procurar a Lua Miguel. Quando achar olha pra ela e faz um pedido e só pensa em coisas positivas” Nesse momento eu nem me importava mais com a hora, estava tudo tão lindo. Aí depois de uns minutos ele disse:
- Qual o pedido que você fez?
- Ah, eu não vou dizer! Assim não vale.
- Por que não?
- Porque não. Me diga o que você pediu então.
- Quer mesmo saber?
- Sim.
Ele ficou sentado, olhou nos meus olhos e disse: “- Você!” Perdi o chão nessa hora, não sabia onde enfiar a cara, devo ter ficado roxo de tanta vergonha.
- E o mais engraçado era que Miguel tinha pedido a mesma coisa - Mas aí quando menos esperei, ele foi chegando mais próximo de mim, eu já sentia a sua respiração no meu rosto enquanto os meus lábios procuravam o dele. Quando se encontraram, eu já não sabia o que estava sentindo, dava pra escutar o meu coração vibrando num misto de emoção e desejo. Que beijo. Tudo o que mais esperava. Eu continuava mudo, jamais imaginaria que isso fosse acontecer assim, de uma forma tão linda. O nosso primeiro beijo foi inesquecível, ainda me lembro cada movimento. Eu não queria mais sair de perto dele. Foi ele quem disse primeiro:

- Está na hora de irmos. Sua mãe deve está preocupada.
- Ah, que droga! Logo agora que está tão bom.
- Ainda teremos muito tempo juntos. Temos que saber dosar as coisas.
- Como assim ‘muito tempo juntos’?
- Ué! Pensei que você quisesse namorar comigo.
- E quero. Mas depois de hoje, da preocupação que estou causando por causa da hora, você vai ter que pedir a minha mão aos meus pais.
Caímos na risada e saímos. O pior era que a minha mãe estava realmente preocupada. Quando cheguei na rua, ela estava em frente ao portão me esperando. Inventei uma desculpa qualquer e subi pro meu quarto. Nada nem ninguém iam tirar a felicidade que eu estava sentindo. Adormeci naquela noite com o cheiro e o gosto do Renato.
- Que coisa linda Miguel.
– Isadora diz isso emocionada, percebendo que aquele amor ainda era forte e intenso -
Mas o que aconteceu depois?
- É lindo mesmo... Depois tivemos uma conversa e decidimos namorar, foram os momentos únicos na minha vida. A forma como ele me tratava, que ele cuidava de mim... Mas o nosso namoro ficou em segredo. Eu tinha medo que a minha família descobrisse, e a dele também não sabia. Ele queria assumir pra todo mundo, eu que não deixei. Passávamos a tarde toda estudando, namorando, estudando e namorando. E nunca ninguém desconfiou de nada.
- Mas o que eu não entendo é porque você foge dele.
- Por causa do fim do nosso namoro.
-Como assim? Porque vocês acabaram então?!
- Por sua causa.
-Hã!?
– Isadora ficou perplexa. –
O que eu tenho haver com essa história?
- Isso, depois você vai saber. Outro dia te conto como foi o fim do namoro.
- De novo você vai me deixar curiosa? Caramba Miguel!
- É a vida meu bem. Qual a graça se eu contasse tudo agora?
– Miguel cai na gargalhada e eles voltam pra casa.



Capítulo 1: http://misteriosaguia.blogspot.com/2009/02/capitulo-1-as-lembrancas.html
Capítulo 2: http://misteriosaguia.blogspot.com/2009/02/capitulo-2-pressao.html
Capítulo 3: http://misteriosaguia.blogspot.com/2009/03/capitulo-3-o-segredo.html

domingo, 1 de março de 2009

Capítulo 3 - O Segredo

"A descoberta de Miguel"

As aulas começaram e Isadora ainda não tinha conseguido conversar com o Miguel. Sempre que ela queria entrar nesse assunto, ele conseguia se esquivar. Até que um certo dia, Miguel cansado de ser sufocado pelos próprios sentimentos, de esconder certas coisas da namorada, resolve chamá-la pra conversar. Isadora vai até a casa do seu namorado com o coração aflito, pois teme o pior. Mas o momento era esse e não podia perder a chance.

- Oi! Vim correndo assim que você ligou. O que aconteceu? – Isadora fala sem esconder o nervosismo.
- Oi Isa! Não precisa ficar nervosa. Te chamei aqui porque resolvi contar tudo pra você. – Miguel fala calmo e tranquilo.
- Tudo? – Isadora certa de que algo muito ruim vai acontecer em relação ao namoro –
Já sei, você quer acabar o nosso namoro não é? Resolveu ficar com a sua amante.
- Calma Isa, não seja tão precipitada. Vamos por parte.
- Essa sua tranquilidade me assusta Miguel.
- Você não tem ideia de como estou por dentro. Meu coração está quase saindo pela boca. Não sei por onde começo
– Miguel respira fundo e continua -
Resolvi te contar tudo o que sinto. Mas pra isso tenho que fazer uma coisa que você não vai gostar...
- Seja mais objetivo.
– Isadora pede impaciente
.
- Quero que saiba que eu gosto muito de você. E não tenho culpa do que está acontecendo comigo. Nunca quis te magoar.
– Ele dá uma pausa longa, olha nos olhos de Isadora e continua –
Não podemos mais ficar juntos. Pelo menos como namorados.
- Eu sabia... Por que Miguel?
- Me perdoa Isa. Ninguém está sofrendo tanto quanto eu.
– Miguel começa a chorar –
Vai ser melhor pra nós. Confie em mim.
- Você tem outra?
- Não. Não tenho ninguém.
- Então por que você quer acabar o nosso namoro? Está gostando de outra menina, só pode ser isso.
- Não.
– Ele enxuga as lágrimas e continua –
Você vai entender porque estou fazendo isso. Mas preciso que você prometa que vai me ajudar.
- Claro.
– Isadora percebe que tem algo mais sério, dá uma pausa e continua –
Pode contar comigo. Eu já disse pra você que independente de qualquer coisa, somos amigos.
- Era tudo o que eu queria escutar.
– Miguel abraça Isadora e chora como uma criança desprotegida.
- Miguel me conta logo, já estou ficando angustiada. O que está acontecendo? – Ele abre a boca, mas não consegue falar, Isadora continua –
Você está doente?
- Não.
– Miguel responde e vai para a janela do seu quarto, pois é onde ele cria todas as forças para enfrentar a vida – Eu vou te contar tudo desde o começo... Há alguns anos atrás, no colégio que eu estudava, me apaixonei por uma pessoa. – Ele percebe que Isadora está atenta e continua –
Ele estudava na mesma sala que eu...
- Ele?
– Diz Isadora sem entender.

- É. Ele mesmo, essa pessoa era um garoto.
- Mas...
– Isadora não consegue completar.

- Por favor, Isa, deixe eu terminar. – Miguel dá uma longa pausa e continua - Esse menino era muito lindo, e todas as meninas o cobiçavam...
- Mas ninguém sabia ou desconfiava dos seus sentimentos?
– Interrompe Isadora ainda chocada.
- Não. Até porque eu ainda não tinha certeza do que estava acontecendo, pensei que fosse da idade, que seria só uma fase e logo passaria. Também não tinha amigos, nem ninguém em quem eu confiasse para falar essas coisas. Tinha medo de que meus pais descobrissem, aí por isso não contei pra ninguém. Sofri muito calado. Chegava da escola e ia direto pro meu quarto. Ficava horas pensando nele.
- Ah! Imagino como você deve ter se sentido. É muito difícil mesmo.
- E como é difícil. Vivemos numa sociedade hipócrita. Uma sociedade que está mais interessada na vida alheia do que na própria vida. Que prefere condenar a respeitar. Digo isso não só em relação ao homossexualismo, mas ao credo, raça, cor, enfim. Infelizmente é assim.
– Miguel fala triste.
- Quer dizer então que você é gay?
- Sim. Até então ainda estava confuso, não sabia o que queria. Ou melhor, quem queria.
- Como assim ‘quem’?
- Mais na frente você vai entender.
- Tudo bem então. Mas fique sabendo que pode contar comigo.
– Ela abraça Miguel e antes que as lágrimas decidissem cair diz alegre -
E pode começar a falar mais desse tal garoto.
- Ah! Ele era muito fofo.
– Um tom de tristeza era notável na voz do Miguel - Tinha olhos castanhos, cabelos negros e lisos. Era mais alto do que eu. Tinha o corpo todo definido, nem parecia ter a idade que tinha. Um sorriso lindo, mas lindo do que todos que eu já vi nesse mundo. – Miguel fala com um brilho nos olhos
.
- Espera aí. Essa descrição que você fez dele, lembra muito aquele garoto lá da universidade. Como é mesmo o nome dele?
- Renato.
– Miguel fala desconcertado
.
- Não vai me dizer que...
- É... Ele mesmo.
– Miguel interrompe.
- Ah! Agora as peças começam a se encaixar. – Isadora matando a charada –
Por isso você mudou tanto depois que entrou na universidade. Mas o que aconteceu para você sempre fugir dele? Alguma coisa séria entre vocês?
- Isso é uma longa história.
– Ele olhando para o relógio –
Já estou atrasado para o dentista.
- Ah Miguel! Você vai me deixar curiosa?
- Prometo que depois marco um dia pra te contar todos os detalhes. É muita coisa, não estou nem na metade ainda. Por enquanto, vai ficar na curiosidade.
- Tá bom. Fazer o que né?! Só sei que não vou conseguir fazer mais nada até você terminar essa história.
– Ela fala rindo e já saindo.
- Isa! – Miguel a chama –
Muito obrigado por me entender e me escutar. Nunca vou esquecer disso. Desculpa pelo que te fiz passar.
- Que é isso Miguel? Essas coisas a gente não escolhe, simplesmente acontecem. Não estou chateada com você, pelo contrário, estou feliz por você ter se decidido. São coisas do destino, e que são difíceis de evitar. Eu só quero vê-lo feliz –
Isadora abraça Miguel – Já que não podemos ser namorados, vamos ser amigos. Serei sua melhor amiga, ficaremos mais unidos do que nunca. – Enxuga os olhos marejados e diz - Mas quero saber todos os detalhes dessa história – fala bem humorada.

- Obrigado. Eu sabia que podia contar com você. – Diz ele emocionado – Contarei tudo sim. Deixe comigo! – Dá um sorriso e mais uma vez abraça Isadora.

Eles passam um tempo abraçados. Miguel chora de emoção e de felicidade. Perdeu uma namorada, mas ganhou uma amiga. Ele sabe que Isadora é uma boa companheira e vai ajudá-lo a ser feliz. Isadora também chora de emoção, Miguel deu a maior prova de amizade, lhe confiou o seu segredo mais íntimo. Agora surge um laço de amizade que vai ser difícil desfazer.



Capítulo 1
Capítulo 2